Um Leon, dois emigrantes
Como já havia descrito há alguns meses, passei um bom período do meu tempo livre em busca de um novo carro. Tudo movido por novas necessidades e principalmente insatisfações pessoais com o primeiro carro que eu tive: um Seat Ibiza Ecomotive.
Não tenho problema em assumir meu lado "diva" neste tipo de assunto. Se meu dinheiro permitir eu quero um carro topo de linha, e com toda a parafernália permitida. Quanto mais itens de segurança, melhor. Não me importo tanto com os apitos desde que estes sejam justificáveis, o que não é o caso com os Hyundais que a família da minha esposa insiste em comprar a cada cinco ou seis anos.
Nada disso fazia parte do antigo Ibiza, que também era um carro muito pequeno para quem precisa transportar mais do que dois membros da família no dia-a-dia. Compras mais volumosas eram sempre uma missão árdua caso mais de uma pessoa estivesse envolvida na tarefa. Sem contar que um carrinho de bebê mal cabia naquela tão pequena mala.
Era preciso evoluir e principalmente desistir da visão de um carro puramente pessoal. E começar a compreender por que os alemães são tão fãs das suas "peruas".
Por muito tempo eu "namorei" o irmão mais velho e mais comprido do Ibiza, o Seat Leon. Para além de maior mesmo em sua versão hatch ele era também mais moderno e mais potente. Mas o principal ao meu ver era ter o seu computador de bordo numa posição muito melhor do que os seus concorrentes da mesma geração.
Pode parecer besteira mas foi o fator definitivo para a minha escolha. O carro mais próximo do Seat Leon neste quesito eram as várias "peruas" da Mercedes-Benz cuja relação custo-benefício extrapolava muito quase todas as opções do Leon que vi no mercado. Algumas opções mais em conta, das marcas que hoje estão sob o guarda-chuva Stellantis, não eram muito animadoras considerando o que li sobre problemas técnicos. Estas últimas também eram muito feias em design exterior e interior em comparação ao Leon.
Definido assim meu alvo, comecei a longa procura. Não me restringi ao mercado nacional porque estando em um país pequeno e protecionista, concessionárias e até vendedores privados dão-se ao luxo de cobrar preços bem acima do resto do continente. Tão altos que em alguns casos vale mesmo a pena entubar os custos de frete e impostos só para importar um carro da Alemanha.
Essa era a minha intenção e usei meus créditos de telefone para entrar em contato com algumas concessionárias de lá. Achei que haveria algum sucesso na empreitada mas estas, quiçá já sabendo que as condições no meu país de origem são nada favoráveis, queriam também enfiar a faca no meu bucho/bolso e girá-la lentamente.
Já contava em desistir da busca e simplesmente ficar sem carro. Afinal não é um item imprescindível para uma pessoa que trabalha em casa e cuja utilização em grande parte são viagens até um parque, uma praia ou a casa de algum familiar nos fins de semana. Para tanto o Hyundai da minha esposa, mesmo que fazendo parte da grande ilusão que é a categoria crossover/mini-SUV, já nos bastava.
Até que me apareceu um anúncio de um vendedor privado no burgo, ainda que há uns 100km de distância (o que é muito para os padrões que aqui vigoram), vendendo um Seat Leon topo de linha com uma quilometragem excelente e um preço que poderia se dizer alemão.
Meu desespero foi imediato. Mandei mensagem ao vendedor logo assim que o anúncio subiu à plataforma e sem resposta, mandei mensagem no dia seguinte. Sem resposta mais uma vez, pensei "mais um negócio perdido" e segui minha vida.
Já no terceiro dia desde o contato inicial, recebo uma chamada no telefone de um número que não conheço mas que não parece ser spam - uma raridade nos dias atuais. Do outro lado um senhor de voz profunda porém suave pergunta se eu ainda estou interessado no Seat Leon.
E lá vamos nós em uma viagem de família para comprar um carro (semi)novo.
A oportunidade era explicada pela realidade de muitos jovens portugueses, pois nem sempre a imigração é a solução. O carro é originalmente da Suíça, onde o antigo dono estava emigrado. Mas depois de um sucesso inicial em sua empreitada laboral, veio o período de COVID e um deserto de oportunidades de trabalho e consequentemente de dinheiro. O que forçou sua volta para o país.
Não fosse este jovem um emigrante em sua jornada de volta ao país de origem, este teria que pagar milhares de euros para regularizar seu automóvel. Entretanto há um regime especial para situações como esta, e as taxas pagas foram ínfimas perto daquelas que eu teria de pagar caso a aventura alemã se concretiza-se.
Mas se as coisas estavam difíceis na Suíça em relação ao trabalho, em Portugal as coisas estavam ainda piores. Seu retorno não deu certo, e o retorno à vida imigrante foi inevitável.
Um carro porém incorre em muitos custos. Ainda mais um Seat Leon "station wagon" para quem tem uma esposa mas não (ainda) filhos. Assim o carro foi deixado para trás em busca de um novo dono, com um tio e a sogra responsáveis pelo eventual negócio.
Esta não era a primeira vez que o carro foi anunciado. Mas a cada anúncio a situação financeira do antigo dono foi ficando mais apertada, e o preço foi caindo à medida. Até encontrar a minha pessoa, disposta a comprar o carro na hora sabendo que uma oportunidade como estas não surgiria tão cedo.
Pelo menos com compras e vendas de carro Portugal não é um universo de burocracia. Até porque respirar dentro de uma repartição pública no país gera eventualmente uma taxa a ser paga pelo contribuinte.
Feliz trouxe o carro de volta para casa. Que tem sido também o carro do dia-a-dia apesar de um consumo de combustível maior que a contraparte sob posse da minha esposa, uma vez que cadeirinhas modernas não são itens de grande mobilidade e intercambialidade.
Também fico feliz pela escolha que fiz porque é um carro de design que tem um pé fora da caixa dos mesmos da sua geração. Sendo um carro da linha FR suas linhas são um pouco mais agressivas, assim como o seu motor.
Internamente fui agraciado com bancos de couro e um teto solar que dá muito jeito quando é preciso entretenimento. Também aprecio a iluminação interna com detalhes nas portas e nos painéis com diversas cores, ainda que o clássico vermelho com preto é uma combinação difícil de bater.
Sinto que será um fiel companheiro por uns bons anos...
... apesar de que já tenho um alvo em mente para o futuro cortejo.