Pega, mata, e come

Mobilidade imóvel

É muito difícil viver a minha vida sem algum tipo de "grande arco" que acaba por se tornar uma obsessão. A coisa da vez é a compra de um novo carro.

Assumo que vivi por muito tempo achando que poderia estar onde estou sem um veículo próprio, como eu consegui fazer por muitas décadas de vida. Fui provado pelo contrário assim que comecei a ver que uma rede teoricamente vasta de transportes públicos não significa uma rede boa de transportes públicos, principalmente no que se trata da periodicidade dos serviços.

A solução de todos a minha volta, até aqueles que querem ser "verdes" de cabo a rabo, é comprar um carro. É até engraçado pensar que uma das minhas maiores amigas neste canto de mundo é vegetariana, trabalha diretamente com artes e cultura, e dirige continente afora um grandíssimo Land Rover movido a diesel.

Eu admito que cometi um leve erro de cálculo com o meu primeiro carro. Eu que sempre me acho mais "esperto" que os que estão a minha volta por vir de onde vim, caí no papo de um vendedor nato. Comprei sem pestanejar um SEAT Ibiza visualmente magnífico e muito econômico, porém com uma série de problemas que eu nem pude ter garantia contra.

Gastei um bom dinheiro no carro não só para resolver tais problemas mas também para trazê-lo à modernidade. Coloquei um sistema Android no lugar do rádio original, uma câmera de estacionamento e sensores. E só não fui mais longe porque fui demovido da ideia pelo dono da oficina que fez o serviço.

Nos poucos meses que tive sem os grandes compromissos que agora tenho com minha família, fui até bastante longe com este carro. Percorri todas as autoestradas ao meu redor e até atravessei algumas fronteiras. Poderia ter feito mais mas eu, medroso que sou como motorista de pouca experiência nas ruas, não fui mais ousado. (Grande) erro meu.

Por conta destes compromissos é que tive que me desfazer do mesmo. Não de imediato porque não queria lidar com vendas em plataformas onde a minha ansiedade já bastante aguçada ficaria ainda pior. E já aceitei que eu nunca vou conseguir recuperar o valor que paguei no carro, e muito menos o que investi em suas reformas e melhorias. É a vida, afinal.

O problema é que uma vez que me convenci que venderia o carro, eu também me convenci - ainda que por um curto período de tempo - que não precisava de um carro próprio. Afinal o Uber já bastaria para as minhas viagens e no limite é possível usar "cadeirinhas" nos carros apropriados para tal.

Um grandíssimo erro meu. Sem parênteses, desta vez.

A natureza do meu trabalho faz com que eu esteja "preso" ao computador durante toda a semana, incluindo fins de semana. Nos poucos finais de semana em que eu estou livre a última coisa que quero fazer é ficar no computador. O que é muito difícil de se fazer quando se mora numa vizinhança sem grande oferta de lazer ao seu redor, e com opções de transporte público bastante limitadas.

Logo é incontornável a minha situação. Eu preciso de um carro, e este não pode ser tão apertado quanto o bom e velho Ibiza que pouco me carregou por um ano, mas que poderia ter feito muito mais se eu não tivesse tantas "questões" na minha cabeça.

Ao mesmo tempo, eu não sou grande fã de carros muito grandes. Quando mais novo e ainda sem a experiência regular de direção automotiva eu me achava fã das boas e velhas "banheiras" das marcas tradicionais, que na minha terra natal são raros de encontrar mas que aqui estão literalmente em toda esquina. E morando onde moro, um lugar de ruas apertadas onde a margem para qualquer tipo de manobra é muitas vezes curta, ter um carro desses em minhas mãos só me causaria ainda mais pânico.

Uma vez que este seria o carro secundário da família, não é preciso ser um destes carros e nem mesmo uma station wagon, um gênero de carro que eu não queria me ver obrigado a comprar. Mas agora que escrevo estas palavras sinto que em breve este será o meu (inevitável) destino. Espero que não mas minhas esperanças do contrário são realmente escassas.

Tudo isto posto, enfrento um problema de "primeiro mundo" nesta questão. O mercado nacional de veículos usados é um lixo, e qualquer carro minimamente desejável pela minha pessoa ou tem uma quilometragem absurda considerando a pequenez do país, ou tem um preço simplesmente impraticável. Mas mais aqui ao lado, num país com um mercado muito mais vasto, o tal veículo é muito mais barato mesmo considerando os preços de transporte, legalização e impostos de importação.

Aqui entramos numa questão de problemas pessoais com autoconfiança. Eu sempre fico admirado quando vejo pessoas bastante jovens dirigindo carros bastante velhos e sem todos as bugigangas demandas pela União Europeia por questões de segurança. Bugigangas essas que alegadamente incrementaram muito o preço base dos carros novos na Europa, levando também ao apelo das montadoras este ano para que a União Europeia abandonasse pelo menos parte dos seus planos de tornar a frota de automóveis no continente mais "verde" e mais segura do que já é.

Apesar de eu gostar de dirigir a minha falta de experiência e a sensação de ser um incômodo a quem está nas ruas comigo me levam a quase evitar pegar no carro. A não ser em questões de "vida ou morte" eu prefiro delegar tal tarefa para outra pessoa.

Tenho que assumir que isso vem do medo de causar dano a outras pessoas. Não só o dano material de um carro com o para-choque amassado. Eu posso ter muita atenção nas ruas, muito mais do que muitas pessoas com anos e anos de experiência no volante. Mas ninguém é perfeito.

Por isso que eu estou numa já longa busca deste carro substituto, numa triangulação entre um carro que não seja nem muito grande nem muito pequeno, com um motor razoavelmente potente, e com os equipamentos de segurança minimamente razoáveis para que eu possa dirigir à noite sem medo de passar para uma faixa e acabar dando uma "fechada" noutra pessoa de forma despercebida. Isso tudo sem pagar um valor muito alto para tal.

Eu poderia muito bem financiar um carro mais caro e encaixar as parcelas do crédito no meu orçamento mensal. Mas a pobreza crônica e a vontade de evitar contrair qualquer tipo de crédito de longo prazo para qualquer coisa que não seja uma casa, fazem com que eu não queira seguir este plano.

Já tive muitas preferências e "alvos" ao longo desta jornada que parece não ter fim. Espero encerrá-la muito em breve. Já aceitei que não há carro perfeito, a não ser que seja eu mesmo montando-o. O que se pode fazer é incrementar as "margens" de uma ou outra preferência até se chegar a uma solução minimamente razoável que não me traga arrependimento imediato. Como tudo na vida.

#pensamentos