Um em cada cinco
Tem coisas que nem valem a pena ruminar por muito tempo. Ainda que eu tenha que assumir que meus banhos matinais são inundados pelos comentários de pessoas que eu nem conheço mas que acabo por ler nas páginas dos portais de notícia que acompanho, uma vez que a torneira se fecha estes desafetos seguem o caminho da água: ralo abaixo.
É mais difícil quando a caixa de comentários invade a vida real.
Apesar de ser dono orgulhoso de uma perua, não sou grande fã de usá-la para lugares onde o estacionamento é incerto. O que na prática significa não retirar o carro da garagem para qualquer viagem feita dentro da cidade onde vivo, principalmente para regiões mais centrais da mesma.
O transporte público, ainda que vasto, é bastante irregular e lentíssimo. Mas para viagens matinais num sábado com a família, mais que dá para o gasto. Fora que com um passe mensal gratuito, o incentivo de deixar o carro em seu cantinho é ainda maior.
Entretanto eu e minha família ocupamos volume. Por sorte os ônibus da cidade incluem uma zona para carrinhos de bebê que podem sempre ser ocupados caso uma cadeira de rodas para deficientes não esteja no automóvel durante a viagem.
No entanto este espaço outrora dedicado a brutalidades como os equipamentos Cybex que vejo espalhados país afora também possui dois bancos que quase sempre estão ocupados. E quem geralmente ocupa estes bancos são pessoas de mais idade que querem andar com mais espaço do que nos já apertados bancos normais espalhados pelo ônibus.
É sempre um incômodo ter que pedir para que estas pessoas saiam do espaço. Mas é a regra, e o espaço ali dedicado para o carrinho ou para a cadeira de rodas é justamente para facilitar a circulação pelo ônibus que já é estreito. Tal circulação seria muito pior se a geringonça tivesse que ficar no corredor por onde entram e saem pessoas, parada a parada.
Na nossa cidade temos algumas padarias "badaladas" com razão, por terem produtos de ótima qualidade ainda que o preço seja razoavelmente salgado. Resolvi que a manhã de um sábado como hoje era momento perfeito para ir a pé até uma delas, o que nos daria cerca de meia-hora de caminhada.
Tudo bem para mim e para o fedelho, mas não para a minha parceira cujo cansaço tem sido perene em dias atuais. Logo, com o carro bem guardado na garagem e sem a disposição de dar meia-volta até em casa, fomos para o ponto de ônibus.
As linhas de ônibus que passam pela nossa vizinhança são das mais utilizadas em toda a cidade. É comum estarem bastante cheias durante os dias de semana mas não nos finais de semana. Aparentemente o ônibus que íamos pegar era a exceção à regra.
Entramos já fazendo a bagunça de costume. "Perdão" e "desculpa" ditos a todo canto mesmo que desnecessariamente para que o carrinho pudesse seguir seu caminho, com ou sem pés pisados pelas suas largas rodas.
Nos dois bancos, iam dois senhores de boa idade. Um deles logo se levantou. O outro, parecia não entender muito bem o que acontecia.
O senhor que se levantou foi o intermediário da situação, avisando seu parceiro geracional que era preciso levantar para que o carrinho ocupasse aquele espaço. Sem pestanejar o senhor outrora confuso abriu também espaço, e ali nos instalamos como sempre fazemos em circunstâncias como esta.
Parecia que tudo estava resolvido. Os senhores logo conseguiram lugares para se sentar nos bancos reservados para idosos, e o espaço de circulação estava aberto. Estava afinal errado.
"É por isso que o Ventura tem que ganhar as eleições", disse um senhor que resolveu ali tomar as dores aparentemente inexistentes dos velhos que tiveram o incômodo de desocupar o espaço reservado para o carrinho de bebê. E para quem não sabe, o tal "Ventura" é André Ventura, líder do partido CHEGA e figura-mór da extrema-direita atual em Portugal.
Há alguns anos eu teria respondido de alguma forma, provavelmente ácida, como faço muitas vezes neste espaço. Posso ser vulnerável como imigrante em um país cada vez mais preconceituoso mas não tenho sangue de barata. Ao mesmo tempo, já não tenho mais idade nem saco para uma fadiga como essas.
Por um lado eu até gosto que pessoas como este senhor, que não era tão velho quanto os outros mas que parecia ter levado uma surra da vida, declarem preferências como esta. É muito melhor saber com quem se está falando neste quesito, em comparação a quem naquele ônibus pode ter pensado o mesmo e nada disse.
Ainda assim é preciso questionar a razão pela qual o senhor emitiu tal opinião. É de se dizer que enquanto eu sou claramente imigrante e não-branco minha parceira é portuguesa até dizer chega. Nossa cria acaba por ser uma mistura de ambas as partes, mas com um tom de pele muito mais puxado para o meu do que para o dela.
Tentando me colocar no lugar daquele senhor, acho que o ponto de partida é o "desrespeito". São senhores portugueses tendo que se submeter a uma regra imposta pelo município e/ou pela companhia de transportes da cidade para dar lugar a um carrinho de bebê. Uma hierarquia que não faz sentido já que o bebê e os pais não contribuíram tanto quanto aqueles senhores que tiveram de se mexer por alguns segundos para encontrar lugar noutro canto do ônibus.
Depois é o puro preconceito. Para além de mim estavam no ônibus muitas outras pessoas não-brancas. Muito provavelmente pessoas que iam para seus trabalhos no fim de semana, enquanto pessoas como eu e minha família tirava proveito do nosso privilégio de gastar algumas dezenas de euros em pães, doces e salgados.
O senhor que declarou apoio em Ventura nem era tão branco, como é o caso de muitos portugueses que depois de ficarem ao sol por conta da natureza do seu trabalho acabam por revelar porque são considerados mais próximos dos árabes do que dos europeus que tanto prezam. Mas como português que se vê nato, com uma linhagem provavelmente não muito rica em recursos mas pelo menos em história arquivada e trabalho duro (ou não), um ônibus preenchido por gente como eu e até porque não meu filho são coisas que lhe incomodam no âmago.
Mais uma vez, queria que houvessem mais pessoas como ele. Que declarassem de peito aberto essa reação visceral ao que lhes é estranho, e consequentemente o seu sentido de voto nas eleições vindouras.
Porque é muito mais fácil conversar com uma pessoa assim do que com o anônimo do fórum do jornal X ou Y cuja prosa libertária esconde a mais extrema das crueldades. Ali no ônibus está um senhor incomodado com a mera existência de uma ou mais pessoas, seja lá se este incômodo tem ou não racionalidade. É um muro muito mais fácil de se atravessar do que navegar pesquisas eleitorais onde o CHEGA está sempre com pelo menos 20% de apoio entre eleitores no país.
Ao meu ver estes 20% de apoio indicam pelo menos um em cada cinco pessoas adultas ao meu redor que tem esse incômodo em seu âmago. Pode não ser direcionado pessoalmente a mim ou ao meu filho porque é mais que normal entre eleitores de partidos de direita relevarem evidências pessoais e até científicas em prol do conservadorismo e do preconceito. Mas são pessoas que no mínimo colocam em risco a minha existência e a de pessoas como eu toda vez que são chamadas para o exercício máximo da democracia neste país.
Isso sem contar com os ainda 30%+ que votam na "centro-direita" que tomou para si a agenda anti-imigração de Ventura e cia. Estes aí estão ainda mais escondidos, e são quiçá mais perigosos.
No fim do dia a viagem de ônibus seguiu sem percalços. Descemos no ponto próximo à padaria não antes de criar mais confusão antes de fazê-lo e minha parceira quis tecer alguns comentários sobre o caso. Eu pouco tinha a dizer em resposta, além de "sempre prefiro saber qual é a cara dos meus inimigos".