Pega, mata, e come

Triangulação

É inevitável que minha vida acabe por ser uma certa triangulação dos meus anseios. Não sou único neste sentido e imagino que todos ao meu redor tenham que fazer algo do gênero, uns mais que os outros dependendo do tamanho do privilégio que suas vidas lhe permitem carregar.

No momento este privilégio meu é até bem alto. Uma vez que tenho um emprego estável e que paga razoavelmente para os padrões regionais e nacionais enquanto minha situação financeira em termos de custos é bem previsível em comparação a muitos dos meus pares, principalmente na comparação entre outros imigrantes que aqui vivem.

Este privilégio é principalmente temporal. Enquanto rodo meus testes, minhas pipelines e outras coisas do gênero, posso responder e-mails, escrever, preparar comida, e até limpar a casa. Não de forma muito profunda porque admito minhas lacunas, principalmente em detalhes como as portas da cozinha que ficam todas marcadas por conta dos armários serem daqueles que não possuem maçanetas.

Logo vem o peso na consciência quando me vejo insatisfeito com o que faço. Afinal mudar de empresa, e consequentemente de posição, significa menos tempo para fazer estas coisas extras que são pequenas no grande esquema das coisas, mas que me trazem um grande alento caso eu estivesse (muito) mais ocupado com o meu trabalho.

No entanto a pulga sempre anda atrás da orelha. E se afinal a nova triangulação me colocasse num lugar um pouco mais próximo daquilo que eu quero fazer no longo prazo?

Porque no longo prazo eu não quero ser mero contribuidor de lucros exorbitantes para consultorias. Mesmo que isso signifique ganhar (muito) menos, eu quero um trabalho com valor social que me traga a satisfação não só da tarefa bem feita mas também da contribuição para que pelo menos uma pessoa sinta-se melhor naquele dia.

Há alguns dias fui a um banco para tratar de alguns assuntos pessoais e corporativos, e fui recebido pela mesma jovem que já havia me atendido há alguns meses para tratar dos mesmos assuntos. Não fui tratado de forma especialmente simpática nem nada do gênero. Mas aqueles poucos minutos no banco precedidos por muitos minutos de espera na fila foram vitais para que pendências de muitos dias ficassem resolvidas. Coisas que não podiam ser feitas pela internet e nem pelo telefone - uma raridade nos tempos de hoje.

Não é que eu queira ser gerente de banco. É um trem que já passou pela minha vida e não me vejo com fôlego para correr atrás do mesmo. Entretanto eu acho que é possível ser o que sou mas em um lugar onde estas melhoras mesmo que marginais no dia de alguém possam ser feitas.

O que significa seguir para a iniciativa pública. Algo que neste país significa também desvalorização salarial, constante precarização das condições de trabalho, perseguições ideológicas, entre muitos outros problemas.

Tudo o que eu queria.

#pensamentos