Rumos artificiais com custos reais
Há dias onde é inevitável pensar que eu peguei alguns caminhos errados nas encruzilhadas que encontrei na vida. Um destes dias é o dia de hoje.
Escolhi abandonar o que eu tinha em minha terra natal e recomeçar do outro lado do oceano porque tinha o sonho à época de ser um "analista de dados". Em meados da década de 2010 isto significava muita coisa. Mas o mais importante era depurar os vários dados gerados por coisas tão simples como o mero mover de arquivos de uma pasta para outra para trazer novas informações aos decisores de uma empresa ou de um governo.
Mas se naquela época as ferramentas de análise de dados já eram péssimas de se trabalhar, a coisa ficou ainda pior nos últimos tempos. Muito por conta da integração de inteligência artificial a tudo que é feito no mundo de TI.
No fim acabei por não seguir a carreira de "analista" mas sim a de "engenheiro". Afinal era mais divertido e se encaixava melhor no meu perfil ser a pessoa que entrega os dados para que os mesmos sejam depurados por alguém mais bem treinado - e apessoado - para lidar com o público. Ainda que o que é entregue ainda tem de ser muito bem mastigado para que o "analista" possa de fato "consumir" tais dados da melhor forma possível.
Só que mais uma vez, a encruzilhada aqui poderia ter tomado um outro rumo. Um rumo quiçá mais estressante e mais desgastante no âmbito global mas que poderia me deixar mais satisfeito e menos preocupado com coisas como o GitHub Copilot mudando o seu método de cobrança.
Quando estava nas rodadas de entrevista pouco antes de terminar meu curso de escolha na faculdade, fui chamado para uma oportunidade muito rara nestas terras: uma oportunidade de estágio em um banco de investimentos. Fui até muito bem na entrevista mas com um porém: a última etapa, a ser realizada pelo CEO da companhia, só seria feita quando o mesmo voltasse de uma longa viagem dois ou três meses depois da entrevista inicial. E já naquela altura eu já estaria assinando o contrato para entrar na empresa onde eu eventualmente comecei minha jornada como "engenheiro de dados".
Imaginei que nunca ouviria um retorno de tal oportunidade até que em meados de outubro do ano em que comecei minha jornada em TI, recebi uma ligação do tal CEO. E tive que informa-lo que já estava contratado noutra empresa.
Considerando tudo o que fiz na vida até aqui não acho que fiz muitas más escolhas. Mas aqui, agora vendo no horizonte tudo o que se forma no mundo de TI e fora dele principalmente com a "revolução" de IA que em breve explodirá em nossas caras, não consigo pensar que fui um pouquinho burro em nem considerar ouvir a oferta do banco.
Creio que não teria impedimentos em me recolocar neste tipo de mercado considerando minha formação acadêmica e até minha disponibilidade para continuar a estudar visando uma eventual mudança de carreira se a coisa ficar muito apertada nos próximos anos ou até meses. Sim, estou sendo bastante dramático. Mas acho que estamos todos não dimensionando muito bem o que está ocorrendo neste meio, nem o que ocorrerá quando os mercados de energia corrigirem de forma tardia mas estrutural o mundo em que vivemos. Isso sem contar com o que as próprias companhias de IA terão de fazer com os seus investidores já bastante cansados de oferecerem subsídios aos consumidores sem qualquer retorno monetário.
Não ajuda também estar em um lugar onde a própria possibilidade de "fugir" da nuvem é impossível. O que só aumenta minha ansiedade e minha "coceira" para eventualmente procurar novos rumos, preferencialmente em um local onde ser engolido por uma baleia não significa estar em seu suco gástrico por meses, senão anos, a fio.