Pega, mata, e come

Oferta, demanda e um tiro pela culatra

Tenho que admitir que um dos maiores prazeres para a minha pessoa é estar certo quanto as consequências dos atos alheios. Nesta eu não esperava ter tal prova tão cedo.

Como já havia escrito outrora, o burgo está fechado. Ficou bem mais difícil entrar, manter-se e até sair daqui, considerando um caso recente de um jovem que ousou sair de Portugal para fazer um intercâmbio na Irlanda após ganhar tal oportunidade por conta do seu desempenho escolar, e que foi deportado para o Brasil quando voltou para "casa".

Já na época destas mudanças serem propostas eu logo captei a intenção do governo. Para além de atender os medos dos autóctones que claramente não conseguem vislumbrar um país menos branco, a redução do fluxo de entradas geraria um efeito quase imediato no mercado de trabalho de subida salarial nos ramos mais afetados pela redução de mão-de-obra disponível.

O país tem vivido já há alguns anos uma situação bastante favorável nos índices de empregabilidade. A taxa de desemprego mantém-se muito baixa para os padrões ibéricos e a taxa de ocupação laboral cresce ano após ano. Os "nem-nem" - jovens que não trabalham nem estudam - sempre preocupam mas estes estão mais que confortáveis vivendo às custas dos pais e em muitos casos dos auxílios estatais enquanto esperam o "estalo" para levantarem suas respectivas bundas e emigrarem.

Portugal todavia é um país muito mais complexo do que se imagina. É um país de renda alta para os padrões mundiais, inserido na União Europeia da cabeça aos pés, e com algumas mais-valias muitas vezes ignoradas como a sua ampla área marítima por conta dos territórios além-mar da Madeira e dos Açores. Mas sua economia basal é ainda altamente extrativa e extremamente dependente daquilo que se considera mão-de-obra "não qualificada".

Entretanto o conceito de mão-de-obra "não qualificada" é altamente enganador. Antes de tudo para se trabalhar em áreas deste gênero é preciso ter uma disposição que os nativos não tem. Eu logo me lembro do gráfico abaixo de uma pesquisa de opinião feita logo pelos faróis do libertarianismo, o instituto Cato, onde 80% dos inquiridos - 90% entre republicanos - diziam que os EUA estariam melhores se mais americanos trabalhassem no setor industrial. Entretanto cerca de 25% destes dizem que estariam melhor caso estivessem empregados na indústria.

welp

Não duvido que o sentimento no resto do "ocidente" seja idêntico, e o que eu vejo de evidência assumidamente anedótica é exatamente isto. Empregos industriais são altamente valorizados por economistas, políticos, advogados e afins mas ninguém quer entrar às 8 da noite em uma fábrica para sair de lá quem sabe às 8 da manhã.

O problema para o nativo ocidental é que quem tem a disposição para ocupar estas vagas, seja na indústria, na agricultura ou em qualquer outro campo com demandas físicas mais intensas do que sentar em frente ao computador o dia inteiro, é o imigrante. Logo num cenário onde a mão-de-obra para estes campos fica mais escassa, os ganhos salariais também vão para o imigrante que estes querem ver longe dos seus respectivos horizontes.

Uma questão tão óbvia que quiseram ignorar. E agora, temos pedreiros brasileiros em Portugal ganhando condições de trabalho nunca antes vistas mesmo para nativos na mesma área.

Acontece que Portugal e muitos outros países na União Européia tem um déficit crônico de emprego nestas áreas "não qualificadas". Termo que mais uma vez é enganador porque não é tarefa fácil coisas como cortar carnes, bater uma massa em um canteiro de obras, ou até mesmo fazer a colheita das uvas. São coisas que mostram como que na hora do "vamo ver" um diploma de nível superior no mercado de trabalho vale tanto quanto um papel higiênico usado e molhado.

Eu particularmente fico feliz não só por estar certo na análise de que a política não teria o efeito esperado pelo governo de subir os salários para os seus pobres eleitores. Mas também porque mostra como que não há outra saída para a Europa e sua manutenção a não ser aceitar que o continente é moribundo.

Sem a imigração a Europa definhará em suas dinâmicas internas. Já tivemos um gostinho disso com o caso de Ceuta e as reações coletivas de condenação à Espanha pelo "efeito de chamada" gerado pelas legalizações em massa feitas pelo governo de Pedro Sánchez, e as decisões do Supremo do país que supostamente deram a entender que os desgarrados da África que tiveram a sorte de aparecer nas praias do enclave espanhol teriam caminho livre para se tornarem imigrantes documentados naquele pedaço de terra.

Mas não posso também excluir a ideia de que é desejo da Europa esse processo de definhamento por suas próprias dinâmicas e contradições. Não é nada incomum pessoas ao fim das suas vidas terem um desejo de morte, e pode muito bem ser o caso europeu quando a alternativa é um continente não tão branco quanto outrora.

Sem contar que como mostra a história, as baterias voltadas para as minorias sempre voltam eventualmente para os nativos. Já temos isto em Portugal com o governo atual tentando introduzir uma reforma laboral/trabalhista com aspectos liberalizantes e totalmente contraproducentes considerando o atual momento do mercado de trabalho interno. E já agora foi lançado um relatório sobre sustentabilidade da segurança social portuguesa que é uma longuíssima defesa de um sistema de pensões privatizado, sendo este relatório produzido por figuras que trabalham e lideram grandes fundos de pensões privadas.

Bem-vindos ao mundo basal, Europa.

#Portugal #economia #imigração #política