Pega, mata, e come

O "tecnofeudalismo" já não basta

Não tenho qualquer problema em me assumir um fã de Yanis Varoufakis e boa parte dos seus livros. Até mesmo o seu trabalho acadêmico é admirável, ainda que claramente ele toma a ciência econômica do jeito que ela tem que ser tomada: como um mero exercício de onanismo matemático onde os preceitos da matéria-base são em muitas ocasiões desrespeitados, em prol de uma boa mensagem a ser passada antes de se pensar no sistema de equações irresolvível que a fundamenta.

Entretanto é também sinais dos nossos (maus) tempos que Varoufakis é um dos poucos que conseguem não só espaço como também tempo para desenvolver suas filosofias e propostas de análise estrutural. Porque economistas, por mais que tentem, são raramente bons escritores.

Eu não esperava muito de Technofeudalism de base porque o livro é muito leve para ser algo além de um panfleto sobre um termo que Varoufakis criou para resumir o sistema socio-político-econômico vigente mundo afora. Como panfleto, ele até que funciona. Os capítulos são repetitivos na dose certa para quem não tem noção de quem é Varoufakis e seu trabalho de base, e este trabalho de base do autor é também resumido de forma muito acessível para quem não tem conhecimento sobre o mesmo.

Mas para quem diz que John Kenneth Galbraith e uma de suas obras seminais, The New Industrial State, foram suas grandes inspirações, a prosa deixa muito a desejar. Isso sem falar do conteúdo em si que eu não sou grande fã também.

A ferramenta utilizada por Varoufakis neste livro é uma (longa) resposta a uma pergunta que ele imagina que teria sido feita pelo seu já falecido pai. Presumidamente um marxista de carteirinha que foi preso político durante os tempos ditatoriais na Grécia, o pai do autor foi uma das pessoas que mais inspirou sua visão de mundo e principalmente sua necessidade de questionar tudo o que se vê como "dado" ou "predeterminado" em sua frente.

Não é um recurso novo, nem para o gênero e muito menos para Varoufakis que fez o mesmo em um livro anterior que eu assumo não ter lido, Talking to My Daughter About the Economy. Não duvido que neste livro a ferramenta tenha sido mais eficiente e principalmente mais lembrada em seus rabiscos.

A grande tese do livro é que estamos já em um mundo pós-capitalista. Enquanto o sistema capitalista ainda vigora na sua estrutura de base, este se encontra refém por "feudos da nuvem" representados pelos gigantes tecnológicos: Amazon, Google, Facebook etc.

Graças aos movimentos de base do capitalismo, principalmente a desregulação e a busca por novos meios de obtenção/extração não necessariamente de lucros mas de renda (no linguajar já conhecido pela esquerda de "rentismo"), o sistema encontra-se capturado por um punhado de empresas que conseguiu fazer com que suas rendas sejam geradas de forma basicamente gratuita e sem os esforços do capital clássico com investimentos em máquinas e outras coisas muito românticas de quem queria bons alvos para um ludismo moderno. Tanto que até os capitalistas clássicos, que ajudaram a perpetuação desse novo sistema, acabam por sofrer porque se vêem como "servos" destes feudos virtuais.

As esperanças de Varoufakis e seu pai foram assim estraçalhadas. Dois anarquistas que sonhavam em ver o mundo tornar-se uma grande rede de cooperativas, vê o exato oposto tomando lugar. E nem falamos (muito) sobre mudanças climáticas, mesmo que todo santo ano tenhamos verões e invernos cada vez piores em temperatura, chuvas, ventos, incêndios e afins.

À primeira vista é uma teoria que se pode dar ouvidos. Uma mera vista de olhos para o mercado de ações e vê-se que temos uma concentração bizarra de capital nas empresas que representam os tais "feudos" que Varoufakis propõem. O que significa que a queda de uma delas colocaria em cheque por pelo menos alguns meses todo o sistema financeiro.

Mesmo o feudalismo é algo inegável, ainda que em minha opinião contê-lo no âmbito de mídias sociais, computação em nuvem e outros elementos de tecnologia da informação é muito limitante. Falando da minha área profissional e de expertise, para além das limitações de só se poder criar soluções baseadas nas três companhias que são parte do "feudo" citado por Varoufakis, poucas são as companhias que não estão sob o domínio de uma multinacional que faz parte de outra companhia multinacional com receitas nos bilhões de dólares.

É ao meu ver muito fácil fazer um paralelo entre ser um mero funcionário de uma subsidiaria de uma mega-corporação a milhares de quilômetros de distância - e tudo o que isso implica, desde a falta de reconhecimento pelo trabalho até a eventual deflação salarial porque você é apenas uma pequeníssima engrenagem na grande máquina da corporação-mãe - e um regresso do capitalismo a um novo tipo de feudalismo. Que pode-se argumentar que já era o capitalismo em si, mas que eu "sinto" ter ficado bem pior nos anos pós-2008 e principalmente pós-COVID.

O livro ao meu ver também sofre pelo seu timing. O mesmo foi lançado em 2023 e desde então o mundo tem sido testemunha da velha máxima em que "há semanas em que décadas acontecem".

Muito difícil não demarcar o 7 de outubro de 2023 como um grande ponto de virada para a história mundial. Ponto esse que ainda não foi totalmente absorvido pela população em geral, mas que terá de ser muito bem detalhado e eventualmente contado para as gerações futuras.

Foi o ponto em que qualquer resquício de superioridade moral do "ocidente" foi jogado de vez na privada. Superioridade moral essa que já era um mero enfeite caindo aos pedaços, e que finalmente foi vítima do destino que sempre mereceu.

Quase três anos depois e temos Donald Trump de volta ao cargo de homem mais poderoso do "mundo livre". Tão poderoso que por conta das vontades de Israel, decidiu jogar-se em um confronto evitado a muito custo por seus antecessores porque estes tinham alguma noção de que uma guerra com o Irã seria um lamaçal onde no mínimo o lado atacado arrastaria o atacante para o fundo do mangue.

Mas Trump, cheio de si por conta dos eventos que levaram à queda de Nicolás Maduro na Venezuela - eventos estes que foram em grande parte impulsionados por forças internas e não pela ação direta dos EUA -, achou que seu destino seria o contrário daquele que muitos outros já haviam condenado. Ledo engano, pelo que já se vê.

É bem provável que numa reedição de Technofeudalism Varoufakis reescreveria muito do seu texto para ter em conta todos os eventos que se iniciaram pós-7 de outubro. Incluindo o crescendo fascístico que percorre o mundo impulsionado pelos "feudos da nuvem", levando a uma alienação muito pior do que qualquer coisa que poderia ter sido imaginada por Marx e cia. quando pensavam no modo de produção capitalista.

Porque o que eu vejo no mundo é uma economia que parece ser cada vez mais "falsa". Pode ser efeito justamente dos "feudos" e a grande concentração do capital mundial em suas ações, para além da já citada alienação gerada pelos seus produtos. Mas a coisa não para aqui.

É como a velha metáfora do sapo que se mantém em um balde em ebulição porque lá estava quando a água ainda lhe era confortável. Em um mundo amplamente afetado por crises de custo de vida, a reação coletiva parece ser um encolher de ombros.

Logo o termo technofeudalism, enquanto tem uma boa intenção de resumir aquilo que seria o sistema pós-capitalista pelos olhos de Varoufakis, já não nos basta. E nem sei se consigo concatenar algo que reúna estes elementos de base - do feudalismo tecnológico - com o neo-neo-fascismo, uma economia baseada em empresas com enorme valor intangível e não muito mais, uma população mundial confortavelmente fervida graças às benesses das mídias sociais e do delivery, etc.

É bem provável que Varoufakis concorda com este ponto de vista. Porém meus problemas com o livro não terminam aqui.

Assim como outros esquerdistas Varoufakis é acima de tudo um otimista incorrigível. Eu particularmente vou pela via oposta. Principalmente quando a solução para sairmos desta espiral é um anarquismo digital que força as pessoas a engajarem com o mundo de forma realmente ativa, e não en passant como fazem hoje em dia.

Este é um dos meus grandes dilemas também quando penso em o que poderá reverter a nossa situação - isso se tal reversão for algo factível e principalmente desejado pela "massa". Porque eu não vejo o mundo de democracia direta visionado por Varoufakis no capítulo final como algo alcançável seja agora, seja no futuro longínquo.

A sua proposta é, como mencionei, um mundo de democracia direta em todo o nível. Desde as relações de trabalho até o mundo político, tudo seria feito através do voto direto de todos os cidadãos e os participantes dos pequenos núcleos que o novo mundo ideal e não tecno-feudal criaria. Existiria algumas centralidades para regulação mas a iniciativa estaria sempre na mão do cidadão e dos seus pares, não do governo.

É algo fundamentado pela visão de Varoufakis e autores semelhantes sobre o ser humano, seja como indivíduo ou coletivo. Para estes o ser humano é sempre um ser em primazia, ou a ponto de estar nesta se as condições ideais lhe forem postas em frente. Eu já tenho uma visão bem diferente.

Como um estudante de história e da história, tenho muitas dificuldades em acreditar que o ser humano desregulado seja capaz de manter as benesses prometidas por Varoufakis e outros anarquistas por muito tempo. Mesmo em iniciativas anarquistas/cooperativistas onde pessoas com alinhamento político se encontram, o equilíbrio é altamente tênue entre a mera manutenção da iniciativa e botar tudo abaixo por conta de uma ou mais picuinhas. É algo que falo por experiência própria e contínua.

Por isso eu invariavelmente caio do lado do "marxismo hobbesiano", algo que infelizmente não foi ainda muito bem desenvolvido mas resume bem a minha linha de pensamento. Pode-se argumentar que isto é essencialmente a experiência da URSS, e é bem provável que seja mesmo esta. Mas obviamente com muito menos rusgas caso estivéssemos em um mundo ideal.

Apesar de todos estes poréns, principalmente na parte de exposição de ideias e a prosa, foi um livro que valeu muito a pena a leitura. É pelo menos uma excelente introdução à Varoufakis, e um resumo bastante razoável do estado atual das coisas pelo menos no âmbito estrutural da economia mundial. Mas não vejo muita serventia para o resto.

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