Pega, mata, e come

O peso da sorte

Não tem sido dias fáceis para o mundo, e consequentemente para qualquer pessoa com o mínimo de empatia para com estranhos. É angustiante ser testemunha de vários eventos históricos que ocorrem dia após dia, e sem grandes perspectivas de ter o poder para mudar tal rumo.

Minha intenção era voltar a escrever algo assim que terminasse minha leitura atual, que é mais um livro político-histórico-econômico com uma perspectiva pessimista. Vou faze-lo quando tiver principalmente espaço mental para tal. Algo que está em falta nos últimos dias.

É estranho sentir esta angústia quando se está "bem de vida". Creio que a cada dois ou três textos faço menção do meu status social e financeiro, que me colocam em um nível razoavelmente acima dos meus pares no país onde vivo. Uma perspectiva que excetuando desastres - e faço questão de bater na madeira quando estes cenários cruzam a minha mente - não mudará no curtíssimo prazo.

Mas é difícil não sentir que se está sempre na iminência de algo do gênero acontecer quando o mundo se encontra tão volátil e ao mesmo tempo, tão blasé.

Simplesmente toleramos atrocidades mundo afora porque nossas vidas estão, sim, mais fáceis nos tempos que correm em comparação a algumas décadas atrás. Claro que o atual ópio do povo ajuda e muito nessa completa passividade. Mas duvido que estaríamos assim se a vida não estivesse repleta de muitos confortos, desde o acesso à internet em quase qualquer canto do mundo até os vários deliveries e entregas em casa dos mais variados tipos de artigo.

É uma ideia que eu ainda preciso desenvolver de forma mais concreta. Mas eu tenho que dar o braço a torcer a figuras que tornaram coisas antes talvez inimagináveis como entregas no mesmo dia ou até mesmo no dia seguinte de artigos essenciais, que é algo que a Amazon consegue fazer. As consequências são nefastas, mas o trade-off é claramente aceitável para a sociedade em geral que não parece se importar muito com o fim do comércio de rua em quase toda (grande) cidade.

Estar desconfortável enquanto imerso num poço de conforto é uma dissonância muito estranha. Eu sabia que não ficaria satisfeito mesmo conseguindo alcançar esse nível de sossego em minha vida. Porque eu não consigo ficar verdadeiramente sossegado apenas com a minha satisfação pessoal.

Circunstâncias assim me fazem questionar se eu não sou meramente egocêntrico e assim sendo, uma pessoa procurando constante validação de valores que eu tenho certeza que cultivei meramente observando o mundo e suas injustiças - muitas delas comigo, outras com pessoas como eu. Por que eu não sou mais egoísta como tantas outras pessoas ao meu redor e não me fecho apenas na redoma da vida pessoal de classe média europeia, com todos os seus (vários) luxos?

Culpa é uma das principais razões. É clichê dizer que vi muitas atrocidades enquanto pessoa que cresceu ao redor de periferias, mas o clichê não é clichê a toa. Com muita sorte consegui me desviar deste ciclo, que interrompeu e ainda interrompe a vida de tanta gente de forma brutal e principalmente precoce.

Mas não posso ignorar, sim, a minha empatia. Principalmente com aqueles que acabam por me "servir" no dia a dia.


Um dos confortos que tenho é ter uma pessoa que limpa a minha casa uma vez na semana por algumas horas. É uma pessoa mais jovem que eu, também imigrante, porém sem tanto estudo e por isso classificada como "não qualificada".

Depois de anos de trabalho em uma empresa de limpezas onde os maus tratos eram costumeiros, sua solução foi abrir o próprio negócio. Sou um dos seus clientes, que coincidem em vários aspectos. Da formação familiar até o fato de um dos cônjuges ter um emprego que lhe permite trabalhar de casa regularmente.

Seu marido, que foi também que lhe convenceu a sair do seu país de origem para tentar a sorte do outro lado do oceano, trabalha na sua antiga empresa mas como limpador de janelas. Mas numa vida alternativa, este provavelmente seria meu companheiro de indústria.

Uma vez que esta via alternativa não deu certo, seu maior investimento atual é um programa não remunerado que oferece a potenciais candidatos um ambiente de estudos aberto 24 horas por dia para aprender programação numa verdadeira maratona. Ao contrário dos seus pares no mesmo programa o marido da senhora que faz a faxina semanal em minha casa tem que trabalhar de forma física e intensa das 7 da manhã até às 3 da tarde, de segunda a sexta-feira e às vezes nos fins de semana.

Em tais circunstâncias era meio óbvio que ele não teria o mesmo desempenho de quem consegue entrar no escritório às 7 da manhã e acaba por sair às 10 da noite. Mas pelo visto, ele tem conseguido se manter pelo menos perto destes pares.

Nada disso significa que ele terá sucesso num programa que seleciona no fim de um ciclo menos de 5% dos candidatos. Mas é sinal de que mais uma ou duas tentativas podem resultar no sucesso e numa mudança de vida tremenda para a vida de ambos.

No entanto nada disso é garantido. Os pés continuam firmes no chão e principalmente, a manutenção financeira do carro que a senhora da faxina usa para se locomover área metropolitana afora está cada vez mais difícil. Não só pelos preços dos combustíveis que já devem ter aumentado em pelo menos 30% nos últimos três meses, mas também os problemas que um carro a diesel da Peugeot com 11 anos de idade costuma trazer.

A solução seria pegar um carro híbrido ou até elétrico. Sendo um casal sem filhos, poderia até mesmo ser uma daquelas vans de trabalho que pululam a cidade. Mas com que dinheiro?

Já financiaram uma moto para entregas em aplicativos nos tempos livres, e o aluguel de uma casa mesmo no subúrbio "come" pelo menos 50% do orçamento em conjunto do casal. O dinheiro que lhes sobra no fim do mês é reinvestido neste vôo solo da senhora da faxina. Nem as viagens de carro que ambos tanto gostam tem sido feitas nos dias de férias que ambos conseguem tirar.

Não é uma vida de miséria. Mas é uma situação muito mais de sobrevivência do que de vida. E esta é uma situação que outras tantas milhões de pessoas vivem num país que é considerado rico para os padrões mundiais.

Talvez eu seja frágil demais por ouvir um relato como esse e me sentir angustiado. Ao ponto de pensar em oferecer a eles ajuda financeira para conseguirem um carro novo. Entretanto isso seria apenas criar mais problemas para ambos os lados, uma vez que minhas reservas não são também vastas o bastante para uma "caridade" como o financiamento de um automóvel.

Eu tenho muita sorte.

#cotidiano #pensamentos