Pega, mata, e come

Do eMule à estante

Por muito tempo fui defensor das mídias digitais, principalmente livros, revistas e jornais, porque pensava em sua conveniência e facilidade de transporte. Hoje vejo que a base deste argumento e auto-convencimento era tão-somente a falta de recursos financeiros para ir atrás dos livros que eu queria, os jogos que eu queria comprar, e tantas outras coisas que faz a mídia física tão fascinante.

Em uma família com escassos recursos, um luxo como um videogame de geração atual era impossível de se obter. Mesmo quando a maré virou para algo melhor eu ainda estava uma geração atrás dos meus (poucos) vizinhos mais abastados. Mas eu sempre fui o co-piloto destes.

Tudo porque eu era a criança que sem videogame compensava essa ausência com quilos de revistas sobre o tema. Muitas eram bastante velhas e obtidas em brechós que vendiam estas relíquias a quilo. Entretanto no subúrbio da minha cidade natal o valor intelectual das mesmas era imprescindível.

Em algumas raras oportunidades sobravam-nos dinheiro para gastar no luxo mais tangencial: uma revista mais atualizada de videogames. Foi assim que forcei meu pai a criar uma amizade com o jornaleiro da banca mais próxima de casa, e que nos reservava pelo menos uma ou duas edições mais atuais de seja lá qual fosse a revista de videogames da vez para que eu lá gastasse a minha rica mesada.

Foi assim que obtive algumas relíquias hoje já perdidas e provavelmente tornadas lixo. Como uma edição especial de lançamento do Game Cube, com uma capa prateada onde havia uma longa reportagem sobre os detalhes técnicos do console e alguns "detonados" dos jogos lançados em conjunto com o mesmo.

Com o passar do tempo e com a situação financeira do país e da minha família melhorando apesar de alguns (enormes) obstáculos, as revistas tornaram-se menos atrativas e o videogame algo muito mais ao meu alcance. Não quer dizer que era possível pagar o preço em cheio de um disco original de qualquer jogo de Playstation 2. Muito pelo contrário.

De fato meu pai, sendo nada bobo, procurou a minha pessoa para saber qual seria a melhor versão do eventual PS2 da casa. E eu que era leitor ávido da seção Informática do jornal de referência do país, logo marquei como objetivo de fim de semana uma viagem ao centro da cidade para comprar um console "desbloqueado".

Não foi a minha introdução à pirataria, de forma alguma. À altura eu já era "rato" de eMule, Soulseek e outras várias formas de obter principalmente música pela internet. Até virei uma espécie de central de distribuição deste conteúdo para amigos de escola que me procuravam para gravar CDs e até DVDs de discografias dos mais diversos tipos, desde o pop mais básico até o technical black metal mais obscuro. Para "piorar": fazia isso tudo de graça, só pelo prazer de ser esta espécie de oráculo multimídia.

Pelo avanço dos anos e principalmente as pessoas aprendendo por si como obter de forma fácil mídia pirateada sem intermédio de pessoas como eu, minha função ficou perdida no espaço-tempo. Mesmo minha interação com a pirataria caiu drasticamente, com os serviços de streaming de música sendo os grandes culpados.

Tudo isso se reverteu quando me vi de volta ao interesse por livros.

Livros no meu país natal são bastante caros. Mesmo as tentativas de reduzir custos por meio de descontos em impostos de importação e incentivos fiscais não foram o bastante para incentivar a indústria a reduzir preços para que estes fossem mais acessíveis, pelo menos para pessoas que não fossem de classe média alta. Não a toa que por lá plataformas de venda de livros usados e até brechós físicos ainda tem um relativo sucesso, mesmo em grandes cidades.

Mesmo aqui do outro lado do Atlântico a situação não é muito diferente. Mas não há comparação na ruindade de um lado e do outro.

Comecei com um Kindle e aquele que se tornou seu fiel companheiro, o Calibri. Vasculhei os já muito conhecidos portais de origem russa com milhões de obras e até artigos científicos em busca de obras que ao meu ver me preparariam da melhor forma possível para o meu mestrado. Até os (poucos) livros físicos que eu ainda tinha dos tempos de bacharelado e que eu tinha interesse em rever, foram pirateados e transformados em formatos propícios para a leitura naquela pequena tela auto-iluminada.

Assumo que foi algo que me deu muito jeito e me salvou bastante dinheiro. Só que o custo intelectual também foi grave.

Minha situação financeira melhorou bastante desde aqueles tempos, ao ponto que obter livros por meio das fontes conhecidas na internet não faz mais sentido. Tenho ainda um Kindle que poderia receber quilos de arquivos .mobi a qualquer momento, mas que está parado porque o prazer do livro físico é mesmo imbatível.

Claro que o livro físico, ainda mais os mais baratos/de capa mole que eu acabo por comprar em promoções da Amazon, não são tão ergonômicos quanto o Kindle que mal foi utilizado desde a sua chegada em minha residência. Entretanto eu assumo que é muito mais fácil e principalmente mais marcante qualquer linha de texto que esteja na minha frente quando esta está ali impressa em um papel qualquer.

Posso obviamente ter o azar de comprar um livro mais barato cuja fonte não é grande coisa e qualquer rabisco feito nas páginas ficará ali marcado, mesmo que seja na base do lápis. Ainda é uma experiência mesmo incomparável, a de fazer isso numa página de papel e num PDF muito mal diagramado.

Não quer dizer que eu não compreenda ou até discorde das minhas ações passadas. Era afinal o caso da necessidade fazendo o homem. Infelizmente com artigos científicos, ainda mais para alguém de fora da academia, não há outra maneira de acessa-los sem ser com acesso a fundos monetários quase infinitos ou por meio destes portais de origem muito duvidosa. Portais estes que ajudaram a alimentar o "monstro" da IA que pelo andar da carruagem cobrará um preço bem alto a qualquer um que ousou se meter em coisas como a bolsa de valores em tempos correntes.

No entanto, e já batendo na madeira, não vejo como mudar minha trajetória. Minha biblioteca ainda é bastante pequena e estagnou-se porque o primeiro rompante de compra me levou a comprar umas duas dúzias de livros, e só uns quatro ou cinco deles foram lidos por completo até aqui. No entanto em breve continuarei a expandi-la, para azar da minha estante cada vez mais bagunçada.

#cotidiano #livros #pensamentos