Depois da próxima renovação
Até onde a exposição pública vale a pena?
Como já disse em outros posts, eu sou uma pessoa "vulnerável" no país onde moro. Pode ser apenas coisas da minha cabeça, que tem muita dificuldade em aceitar qualquer tipo de estabilidade garantida seja pelas minhas próprias capacidades ou de outrem. No entanto é invariável eu me sentir impedido de ir muito além dos meus escritos anônimos em lugares como este blog.
A área onde trabalho é razoavelmente sensível a qualquer tipo de exposição política por parte de quem é do meio. A informática já foi um campo ultra-libertário no seu mais amplo sentido, incluindo a liberdade de expressão, ainda que com grandíssimas consequências. Nos tempos de hoje ser um mero operário da indústria com opiniões muito fortes sobre política, sociedade e economia, são maneira fácil de se colocar no alvo de uma equipe de RH que serve apenas para realizar as vontades dos chefes de qualquer empresa.
Não faço parte de qualquer sindicato, partido político ou movimento social. Aqui é onde pergunto se a razão é medo mesmo ou pura preguiça. "Já tenho muito o que fazer", é uma declaração genuína. Ter um emprego em tempo integral, mais uma família para cuidar, mais um sub-trabalho de longo prazo que exige poucas horas de dedicação mas que sempre ocupam um ou dois dias dos fins de semana, mais as responsabilidades de ser membro executivo de uma associação sem fins lucrativos que me ocupa uma ou duas horas da semana. Para alguns que lerem este parágrafo, entendo se a reação final for um profundo suspiro - seja este de compreensão ou de desprezo.
Nisso tudo entra o ciclo constante das renovações de autorização de residência. Era algo que eu deveria estar já "acostumado". Mas como se acostumar com a imprevisibilidade e a consequente precariedade?
Em cada um destes ciclos, que duram alguns anos, as regras do jogo mudam. Um novo governo significa novas regras, e os novos governos pedem por cada vez mais papéis e geram cada vez mais atrasos. O ônus do atraso não é sobre o organismo que deveria gerir o processo mas sim em cima do "cidadão" - que não é um cidadão de verdade pois nem direito a voto ele tem - que arrisca até a expulsão do país caso o atraso se concretize.
Por mais empatia que um autóctone tenha com situações em geral, este nunca vai saber o que isso significa. Essa orfandade institucional que segue o imigrante não-europeu em uma terra cada vez mais hostil a sua presença, seja lá qual tipo de contribuição sua presença oferece para este pedaço de chão.
É sempre possível amenizar tais situações. Casamentos são o primeiro item da lista e oficializar uma longa e duradoura relação, que já gerou os frutos que se esperam de uma união heteronormativa, exige apenas o pagamento de uma taxa e a ida a um notário em data propícia. Também significa orgulho ferido, mas o estado é muito mais covarde com pessoas fracas como eu.
A proposta aqui para não ficar me remoendo nessas coisas é arrumar algo para fazer. Quiçá manualmente. Tenho de fato umas três caixas de motores em blocos estilo LEGO que nem abertas foram desde que chegaram em casa, já há alguns meses.
Posso tentar começar um esporte. Não teria muito tempo para praticá-lo, mas seria uma justificativa muito melhor de ter um tempo só para mim do que a alternativa de ficar em casa arrumando coisas e remoendo minhas angústias.
Ainda penso no doutorado e até em escrever um livro. Mais uma vez, o tempo é curto. Mas com vontade, arranja-se.
Nesse meio tempo continuo no conforto deste espaço anônimo onde posso mandar para os ares o que ocupa minha mente. Não há como negar que escrever é um hobby, mesmo que a escrita tenha virado eventualmente o tal sub-emprego supramencionado. Até posso procurar lugares que aceitem textos da autoria de um pássaro. Mas um texto nunca será tão impactante quanto aquele que acompanha uma cara para se dar a tapa.
Quando entro nestes ciclos eu me prometo que assim que a minha estabilidade for alcançada - que geralmente é a renovação da autorização de residência - eu vou deixar de lado estes medos e pôr em prática estes planos de "exposição". O bom e velho auto-engano.