Pega, mata, e come

"Aliás, o que é desnazificação?"

"Oh não, venceu a AfD!".

Antigamente uma frase como esta estaria acompanhada de um "que surpresa!". Tempos em que o mundo foi resolvido pela queda do muro de Berlim e o triunfo definitivo do capitalismo e do liberalismo sobre o projeto comunista e autoritário.

Uma vitória clamada por quem não conhece realmente a história, chegando ao ponto de declarar o seu fim - mesmo que reconhecidamente de forma provocativa. Afinal é fácil esquecer que considerando a história humana os 80 anos de paz pós-segunda guerra mundial - e muito menos anos de fim do autoritarismo na agora União Europeia - são um ponto quase impercebível na grande linha do tempo da humanidade.

Pelo o que eu vejo à minha volta as reações a essa vitória da AfD, que ao meu ver serve como prenúncio daquilo que virá quando o atual chanceler alemão ver-se sem saída para um governo que já começou moribundo, dividem-se em dois grandes campos. Um diz que a vitória é afinal irrelevante porque o estado da Saxônia-Anhalt é diminuto tanto em nível populacional quanto econômico. Fora que muitas das medidas propostas pela AfD em tempos de campanha como a segregação de salas de aula de ensino básico entre alemães, imigrantes e crianças em asilo seriam consideradas inconstitucionais.

Do outro lado, onde eu declaradamente me encaixo, estão as pessoas que vêem isso como o prólogo de um capítulo muito difícil para uma Europa que sempre se viu acima destas dinâmicas. Até porque, mais uma vez, estava tudo resolvido depois do fim da União Soviética e consequentemente o encerramento de quaisquer pressões por parte de movimentos sociais, sindicatos e afins para que a social-democracia avançasse. Muito pelo contrário: abriu-se naquele momento uma "avenida" para tornar a União Europeia nos Estados Unidos da Europa, com políticas sociais e econômicas muito aliadas com o suserano transatlântico.

Eu como imigrante preciso conhecer muito bem meus "inimigos". Cada vez mais o autóctone europeu se encaixa neste perfil.

Lembro-me sempre de uma passagem de um texto de James Baldwin sobre a sua estadia num pequeníssimo vilarejo na Suíça durante seus tempos de exílio das tensões raciais nos EUA. Ele que à época via na Europa uma maneira de fugir dos muitos preconceitos da sua terra natal, mas que acabou por encontrá-los de forma tão intensa quanto mas de maneiras não tão viscerais.

Parafraseando, Baldwin dizia que mesmo o mais ignorante dos residentes naquela pequena vila nos Alpes conduzia-se pelo mundo com uma confiança incomparável. A confiança de quem é dono de si, do seu destino e porque não de todo o planeta. Até porque mesmo as conquistas europeias tendo sido feitas em cima do ombro de "gigantes" que reconhecidamente obtiveram grandes feitos, mesmo que para fins muito escusos como o colonialismo, este ignoramus é um descendente direto destes outrora grandes homens.

Baldwin escreveu este texto na década de 1950. 70 anos depois o sentimento que eu vejo no dia-a-dia é o mesmo, mas em dose razoavelmente menor. A culpa em parte é não só a perda de status da Europa no estágio global mas também o declínio nas vidas de grande parte dos europeus desde justamente o fim da União Soviética - e consequentemente a permissão para que o estado social do pós-guerra começasse a ser depenado.

O europeu médio não tem noção do privilégio em grande parte político e financeiro que o mesmo vive. Parafraseando outro autor, desta vez Branko Milanovic em um dos seus livros sobre desigualdades de renda e riqueza entre países, o mero fato de nascer em um país europeu faz de um bebê um cidadão no top 70-80% de renda entre cidadãos mundiais.

A questão é que antigamente isto era ainda "pior". O cidadão europeu de classe média estava no top 85-90% de renda na comparação com o resto do mundo. Hoje estes estão nestes 70 a 80% antes mencionados. Mas na pesquisa de Milanovic, a cada ano que se passava os europeus viam-se cada vez mais longe do antigo topo onde estavam.

Isso é sentido de maneira não tão forte como num país de renda baixa ou média, onde a inflação galopante é às vezes a diferença entre trazer do mercado um grande saco de arroz branco ou vários pacotes do espaguete mais quebradiço. Mas obviamente faz a diferença para quem antes usava seu subsídio de férias para pagar uma ou duas semanas de viagem em algum recanto praieiro do continente, e hoje usa esse dinheiro extra para cobrir despesas costumeiras.

No caso da Saxônia-Anhalt o declínio é ainda mais acentuado. Não venho aqui fazer qualquer apologia ao totalitarismo mas não sou ignorante ao ponto de não reconhecer que a União Soviética proveu, mesmo que aos trancos e barrancos, um estado social em alguns quesitos até mais avançado do que qualquer coisa que a social-democracia na Europa sonhou em ser. Até porque a social-democracia nem seria uma bandeira política viável no continente sem a pressão soviética por meio de movimentos alinhados com os seus valores, e que ameaçavam constantemente a coesão social quando esta ameaçava pender (muito) para o lado do patrão e do capital.

A Alemanha Oriental era um perigo muito palpável e real por ser um vizinho imediato do bastião do capitalismo à moda europeia. Claro que a social-democracia tem como uma de suas origens a própria Alemanha pré-primeira guerra, ainda nos idos de Bismarck e suas políticas estatais não só de industrialização tardia mas também de garantia de necessidades básicas do país agora unificado e ainda não muito coeso. Isso sempre seria o palco ideal para o surgimento de Marx e cia. e do tal ordoliberalismo tão celebrado pelos capitalistas que ainda carregam em si um pouco de culpa cristã.

Creio que não preciso destrinchar de forma muito detalhada o declínio em condições sociais e econômicas quando a União Soviética perdeu seu domínio sobre a Alemanha Oriental. Não foi da noite para o dia como nas antigas repúblicas soviéticas cujas quedas em coisas como o consumo diário de calorias foi quase imediato. Mas o projeto de integração entre as duas Alemanhas, que começou de forma muito custosa para ambos os lados, não surtiu o efeito esperado.

Saxônia-Anhalt é um dos países menos populosos e mais pobres do país, e isso tem correlação direta com a perda de indústrias e políticas sociais que antes sustentavam o estado. O êxodo para estados do Oeste é contínuo, até porque as condições de trabalho na região concentram-se nos minijobs - trabalhos de tempo parcial que pagam abaixo do salário mínimo. Entretanto como em todo o resto da Europa, quem aceita estas condições laborais são justamente os imigrantes. Mesmo que estes em Saxônia-Anhalt não sejam numerosos, eles ainda representam 5% da população em um estado cuja economia tem poucos ou nenhum atrativo para quem (ainda) reside por lá.

Vê-se assim que estes 5% de imigrantes são o bastante para enfurecer aqueles que se sentem jogados no caixote de lixo da história.

Imigrantes são um alvo muito fácil para quem quer desviar atenções dos problemas reais dos autóctones que ainda se prestam em participar no maior exercício político das suas vidas: o voto. Estes:

Entretanto o que realmente facilita tudo isso é o fato do imigrante não ter voz. Principalmente uma voz política.

Não só na Europa o imigrante precisa viver no país por anos a fio para, uma vez residente, ter direito a votar em eleições. Muitas das vezes o voto fica isolado a eleições ultrarregionais como as de um município e suas respectivas sub-divisões. Só quando se obtém a nacionalidade é que o imigrante ganha para si o direito a ter uma voz já garantida no berço para quem teve a "sorte" de nascer no país para onde este (agora) cidadão emigrou.

Reconhecidamente regiões onde autóctones tem maior contato como imigrantes tendem a votar menos em partidos cuja agenda é puramente anti-imigração. Entretanto quando o partido anti-imigração vira o condutor de uma campanha política ao ponto de "obrigar" antigos partidos de centro antes tidos como moderados a adotar iniciativas semelhantes, o antigo eleitor de centro não tem muito para onde fugir.

Até porque o eleitor de centro, em seu cálculo político, continua equivalendo a extrema-esquerda e seus valores "retrógrados" com a extrema-direita e seus valores desgraçados. Vota-se assim na opção menos pior, que acaba por ser um partido de centro-direita que logo abraçará a extrema-direita numa tentativa de cooptar sua agenda e assim apetecer, mesmo que só em parte, os anseios dos seus apoiadores.

É algo que pode funcionar no curto prazo. Mas a Alemanha e provavelmente em breve a França mostram que isso não é o bastante. Até porque entre o original e a cópia, o votante sempre escolherá o original.

Neste caso tanto Brasil quanto EUA são parte de uma infeliz "vanguarda". A centro-direita de ambos os países tentaram conter sem qualquer sucesso a extrema-direita. O pacto era simples: deixem-nos conduzir o dia-a-dia da politicagem e em troca implantaremos algumas das suas políticas, até porque nos alinhamos em muitas delas.

Obviamente o pacto foi por água abaixo. Os eleitores não queriam continuar a ladainha da eleição de mais um homem de gravata vermelha, discurso monótono em forma e conteúdo, e a garantia de um declínio gerenciado dentro do sistema capitalista. Era preciso mais informalidade, mais energia, mais descontração. E principalmente um projeto diferente daquilo que tem sido vendido por décadas nas democracias liberais e que se mostra cada vez mais difícil de se promover e até manter.

A Europa achou que era imune aos cantos de sereia da extrema-direita. Não duvido que uma das causas seja o que eu parafraseei de Baldwin sobre a altíssima auto-estima de quem já se viu "dominando" o mundo, mesmo que quem tenha realmente feito isso foi um pequeno punhado de gente muito execrável. Logo os europeus, do alto do seu conhecimento culto e principalmente histórico, estariam acima de uma coisa tão bestial e visceral quanto a extrema-direita. Afinal mesmo que há muitos anos a experiência primária não deu nada certo. "Aliás, o que é desnazificação?".

Tiro e queda - infelizmente.

#Alemanha #imigração #política