A rêmora
É constante em minha vida a confabulação sobre as decisões tomadas ao longo da mesma para que eu chegasse onde estou como pessoa e também geograficamente falando. Digamos que para uma pessoa com o mínimo de conhecimento histórico como o meu, e com as minhas próprias inquietações, mudar-se para o país que foi o seu "colonizador" não é uma boa ideia quando a estadia acaba se prolongando por muito mais tempo do que o esperado, seja por escolha própria, preguiça, e/ou questões da vida.
Ao mesmo tempo estar onde estou me traz o inevitável conflito com um grupo de pessoas muito confuso quanto a sua posição no mundo. O "bom colonizador" de acordo com as aulas de história que mal tocam sobre um período da história do país que durou pelo menos um terço da sua existência, que conseguiu adotar para si um certo tropicalismo por saber integrar-se bem com os nativos/explorados (dentro do mundo das suas próprias cabeças).
É estranho ver que não é um comportamento que se repete muito noutros cantos do Velho Mundo. Pode ser a falta de contato com pessoas destes lugares falando muito mais alto do que qualquer outra coisa. Mas perante a ignorância a postura noutros cantos é de ouvir, e não falar por cima. O que é bastante costumeiro onde estou atualmente.
Esta longa introdução, para além de ser defeito da minha já descrita prolixidade, é também algo incitado pelo artigo do dia 6 de maio de 2026 por Elísio Macamo no jornal Público, com o título "Fragilidade narrativa". É um artigo cujo cerne eu concordo sem pestanejar, e o articulista é um interlocutor muito melhor do que eu para passar este tipo de mensagem aos leitores do jornal.
Não só neste artigo o tom é informal mas ainda professoral. É uma linha tênue de percorrer que o articulista faz com maestria. E sem a "brutalidade" que eu vejo necessária para tratar destes assuntos com gente que ignora e/ou não admite os pecados de um passado nem tão longínquo assim.
Uma vez que o artigo está sob uma paywall, trarei um resumo da argumentação:
O artigo usa a figura da lebre nas histórias infantis moçambicanas como metáfora para pensar Portugal: um país pequeno, periférico e sem grande poder estrutural, mas capaz de se mover com habilidade em espaços internacionais dominados por forças maiores. Assim como a lebre vence não pela força, mas pela inteligência prática e pela capacidade de ajustar o jogo, Portugal teria desenvolvido uma competência diplomática baseada na negociação, na moderação e na capacidade de evitar confrontos inúteis. Essa habilidade ajudaria a explicar a recorrência de portugueses em cargos internacionais de grande visibilidade, como Durão Barroso, António Guterres e António Costa.
Ao mesmo tempo, o texto argumenta que essa competência externa convive com uma fragilidade interna: Portugal sabe circular e mediar no mundo, mas ainda hesita ao construir uma narrativa consistente sobre si mesmo, especialmente em relação ao passado colonial, à pluralidade social e à inclusão. O episódio da composição do Conselho de Estado sem representantes das minorias aparece como sinal dessa dificuldade de transformar o discurso internacional da diversidade em prática interna. Para o autor, essa hesitação abre espaço para discursos políticos mais duros e simplificadores. A conclusão é que Portugal não pode apenas “escapar bem” das situações, como a lebre; precisa também explicar o que sua história significa e assumir uma narrativa mais reflexiva sobre si próprio.
Genuinamente é uma peça que eu queria ter escrito. Mas como podem ver pela qualidade dos "traços" que aqui estão eu ainda estou muito longe de tamanha qualidade. E convido quem tem recursos para tal, que assinem o jornal nem que seja apenas para apoiar o Elísio Macamo e mais um punhado de jornalistas que não tem tanto receio em colocar o dedo nestas feridas.
Minha grande oposição ao artigo é quiçá uma omissão pensada pelo articulista. Ele diz que Portugal é um país que produz bons líderes para instituições internacionais por conta da estrutura de poder, tanto histórica quanto vigente, que produz figuras de liderança que não podem ir muito além das margens para gerenciar o país. E pode-se pensar em muitos exemplos na história que provam isso. Já no colégio passei um bom tempo tendo aulas sobre o Marquês de Pombal e sua tentativa (frustrada) de avançar o país em vários quesitos sociais, governativos e econômicos. E a resistência que veio de tal movimentação por parte de basicamente todas as camadas sociais do país.
Mas não acho que isso é apenas fruto de uma característica inerente e/ou endógena a Portugal. É ao meu ver um reflexo muito mais forte do status do país como um reino subjugado a um grande poder que quando tentou ser independente, acabou sendo humilhado e massacrado dentro e fora da esfera onde sempre teve tanto manejo para navegar.
Porque um dos segredos de Portugal ao meu ver é justamente estar fora dos holofotes. É o país que não se mantém muito na mente de qualquer pessoa para além dos próprios portugueses e alguns casos os produtos da sua colonização. Muito porque se Portugal fosse tão prominente no tabuleiro internacional a tal "lebre" já estaria na boca de um "leão" há séculos.
Pelo contrário. A analogia ao meu ver não é da lebre e sim da rêmora. Aquele peixe que se prende a tubarões em uma relação de mutualismo. Raramente elas tornam-se presas do maior predador dos mares porque sabe muito bem a sua posição na cadeia alimentar e não ousa sair dela. Está mais que satisfeita se alimentando dos eventuais dejetos das carniças que um tubarão-branco deixa após o sucesso de uma caçada.
É uma perspectiva muito dura para se analisar todo um país e o povo que nele está. Mas a inabilidade de Portugal de resolver suas questões internas - como o articulista descreve de forma virtuosa no artigo - é que acaba por motivar essas análises.
Queira ou não Portugal tem de fato uma dualidade muito estranha. O presidente anterior ao atual era filho de um ex-governador de uma das colônias que o país manteve até metade dos anos 1970 (!), e seu pai era consequentemente descendente direto de condes, viscondes e outros nobres do país. Esta figura era declaradamente um "lusotropicalista", e teve papel ativo em tentar trazer mais para perto de Portugal as ex-colônias com quem o país nunca conseguiu se resolver por completo.
O resultado foi desastroso.
Portugal quer se dizer multicultural e diverso, mas o multiculturalismo e a diversidade em Portugal limitam-se às diferenças de tradições entre Norte e Sul do país e o fato de uma empresa de TI ter 15% de trabalhadores do sexo feminino em comparação aos 2% em 2020. Mesmo quando há o esforço de ir um pouco além e admitir a influência do colonizado no âmago do colonizador, esta vem com um claro desconforto por parte deste último.
E com o país vendo-se altamente necessitado de mão-de-obra mas sem a demografia necessária para suprir tais demandas, veio um fluxo imigratório nunca antes visto porém totalmente necessário para o país. E que teve um lado "bom" de deixar ainda mais claras as fraturas que Portugal tentou esconder em suas relações com seus outrora subalternos.
Mais uma vez Portugal é uma "rêmora". Os "tubarões" da história sempre foram os poderes externos que deram a Portugal o privilégio de existir e até pensar em se expandir mundo afora. Os reinos espanhóis em suas picuinhas internas, os ingleses, os norte-americanos, e atualmente a União Europeia. Sem estes "tubarões" a "rêmora" já teria feito parte do banquete de outro poder maior - provavelmente o seu vizinho de Península Ibérica que graças à própria incompetência dentro e fora do Velho Mundo, nunca conseguiu dar este passo extra.
Eu gosto muito da analogia com animais porque tratando-se da própria lebre, ela é na natureza irriquieta, arredia e assustadiça. A rêmora não precisa de nenhum destes comportamentos. Ela não precisa fazer muito para além de acompanhar o tubarão em seus trajetos e "limpa-lo" quando necessário. Já que seu metabolismo é baixo, não é preciso muito para se manter bem alimentado quando se é uma rêmora. E estando perto do tubarão, ai de um potencial predador aparecer para leva-la.
Eu não tenho problema algum em admitir que minha dureza vem de questões pessoais mal resolvidas. Não fui muito inteligente na minha escolha de emigração. Mas a vida é o que ela é. Ela é também, ao meu ver, enfrentar estas questões de forma frontal antes que alguém venha de fora e resolva-as para si de forma longe do ideal.