Pega, mata, e come

A propaganda é a alma do Éden

Dar o braço a torcer por qualquer coisa não é algo tão difícil quanto pode parecer para quem cruza com minha pessoa de forma superficial ou com os meus rabiscos. Mas quando o assunto são os Estados Unidos da América, o mero prospecto de assumir ou até aceitar que estes são bons em qualquer coisa me dá arrepios.

Uma das velhas máximas que sempre me marcou é que "a propaganda é a alma do negócio". A propaganda também é a maior arma dos EUA. E Deus meu, como estes são efetivos nesta joça.

John Steinbeck é o tipo de autor que eu iria gostar só ao ler sua biografia, pelo menos até a sua velhice onde as velhas ideias já não eram mais concatenadas de forma tão virtuosa. Do alto do privilégio de uma vida de classe média estadunidense Steinbeck virou um alto-falante dos desgarrados, menos abastados e esquecidos pelo moedor de carnes que foram as forças do capital no fim do século XIX e começo do século XX.

Há muitos anos li Of Mice and Men e não fui grande fã. Muito provável que eu não estava muito preparado para a obra e também não fui ajudado pelas minhas tentativas de engajar em speed-reading das maneiras mais elaboradas possíveis antes de dar o pulo através do Oceano Atlântico.

The Grapes of Wrath sempre foi um livro em minha mira, muito por recomendação alheia. Mas eu só fui perder verdadeiramente meu cabaço com East of Eden. Uma escolha não muito pensada mas muito acertada.

É uma trama que começa de forma clássica, com uma descrição razoavelmente monótona do ambiente onde a mesma irá passar nas próximas décadas. Para logo depois a chave virar e o livro mostrar para o que veio: propaganda Americana no sentido mais substantivo possível.

Uma longa história de duas famílias que se cruzam em vários momentos, cada uma com suas tragédias pessoais e coletivas. De um imigrante irlandês que faz de tudo mas nunca obteve os recursos que a sua inteligência e esforço "mereciam", ao descendente de imigrantes chineses que no fim de sua vida vê-se cada vez mais ocidental.

A prosa é simplesmente magnífica e consistente do início ao fim. Não há momentos para respiros, mesmo que a vida dos Hamiltons e dos Trasks estivesse em um (raro) marasmo. A vida nos séculos XIX e XX era difícil, afinal, ainda que oportunidades parecessem estar sempre à porta de quem procurasse e tivesse mãos e pernas para aproveita-las.

Aqui eu pensei em tentar discutir minha relação com cada personagem principal da trama e como ele me marcou. Mas sinto que isso não faria jus ao quão verdadeiramente marcante foi essa leitura. Tenho mais uma vez que admitir que afinal minha "dureza" é muitas vezes uma casca. É incrível o poder que um livro com leitura recomendada a estudantes de ensino médio nos EUA pode fazer com um "burro velho" como eu.

Até porque mesmo sendo uma história cheia de arquétipos, tanto para o bem quanto para o mal, é possível ver um pouco de si mesmo em cada pessoa da trama. Claro, muitos destes são também inspirações diretas de personagens bíblicos e mesmo na capa do livro anuncia-se como a história é uma (longa) avaliação do saldo positivo ou não de uma pessoa para com o mundo e as pessoas que passaram em sua vida.

Logo é difícil colocar uma história tão rica em uma caixa de texto como esta. Prefiro muito mais recomendar aos que por algum motivo deixaram passar a oportunidade de ler um livro como este, para fazê-lo quando puderem. Pode muito bem ocorrer que eu sou um mero emocionado encontrando pela primeira vez (pelo menos com atenção) um autor minimamente bom naquilo que faz. Mas isso sou só eu desprezando meus próprios sentimentos frente a uma obra de arte que me tocou de forma muito mais profunda que o esperado.

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