Pega, mata, e come

A Liga dos outros

Há pouco mais de um ano e meio, em um período no meu antigo trabalho onde meu dia se resumia a esperar ansiosamente por uma mensagem vinda do norte da Europa para uma potencial alocação em projeto, recebi o convite de um amigo da minha terra natal para me juntar a um dos seus antigos vícios. Vício este que receberia uma cara nova do seu desenvolvedor.

É muito difícil para a minha pessoa cair de amores por jogos a essa altura da minha vida. Outrora a criança que nem videogame tinha em casa, mas que comprava revistas do assunto só para saber como que se batia os níveis de um Resident Evil no Game Cube, hoje meu contato com jogos se resume a vídeos e artigos sobre as picuinhas de uma indústria que deu muitos passos para além das pernas e inflou-se com o próprio ego.

Uma das grandes razões para evitar tais quedas é simplesmente tempo. Um trabalho de 9 às 18 horas que mesmo com muito tempo em suspensão ainda requer uma disponibilidade constante para reuniões e discussões não me dá a paz de espírito que eu tinha durante os tempos de universidade. E mesmo antes do expediente laboral tenho trabalhos familiares que eliminam quase que completamente qualquer tempo livre que não seja aquele para mofar no sofá com reprises de séries clássicas da HBO.

Mas por pelo menos uns bons dois meses, Path of Exile 2 me tirou deste estado de torpor "videogamístico".

Não fiz aquilo que eu queria fazer no jogo. Atingi o nível 92 com a minha Sorceress, copiando uma build muito equilibrada que já nos últimos níveis do jogo não alcançava nem a ofensividade e muito menos a defesa requiridas para o conteúdo do jogo, com seus "pinnacle bosses" cujas habilidades conseguiam dar cabo da pobre maga em um só tiro. Fora a minha ruindade em videogames, algo que me persegue desde os tempos sem qualquer manejo com os controles.

Eu até tentei dar continuidade a este tipo de atividade. Entretanto o tempo foi ficando cada vez mais escasso, tanto quanto as justificativas para me dedicar a uma atividade sem um retorno que não fosse uma pequena dose de endorfina ao fim da queda de um chefe de mapa.

Também admito que a função de ligas em um jogo como PoE 2 me deixou um pouco confuso de início. Eu que cresci acostumado a jogar coisas como Ragnarök Online onde a meta era chegar ao nível máximo e daí começar a aproveitar o jogo por anos a fio, não entendia a razão de "perder" todo o progresso feito com um personagem alguns meses depois dele ter sido criado.

Só que uma vez que comecei a acompanhar a cena de YouTubers e streamers dedicados a jogos como PoE 2, a coisa começou a fazer total sentido.

Um jogo como este é também exponencial. Com mais recursos você faz mais coisas, e angaria também mais recursos. Considerando que existe ali uma economia muito dinâmica por meio da compra e venda de itens e principalmente de "currencies", teríamos um cenário onde preços de qualquer coisa dentro do jogo tenderiam ao infinito se o mesmo fosse perene. Tal como acontecia com Ragnarök em muitos servidores, o que depois exigia dos seus donos táticas mirabolantes para resolver suas economias como o literal confisco de dinheiro, a oferta de itens ultra-poderosos e muito cobiçados como despejos de moedas, etc.

Com as ligas um jogo como PoE 2 e o seu original, PoE, não sofrem disso. E no fim do dia o progresso feito com o seu personagem em uma liga não é perdido. Ele é só retido em uma liga contínua, que não recebe o conteúdo da liga em si mas que permite que o jogo continue a ser jogado por quem opte por esse escalonamento infinito de longo prazo.

Nesta última liga eu tentei voltar ao jogo. Com o trabalho em banho-maria em alguns dias e os compromissos familiares sendo resolvidos largamente no começo e no fim do dia, senti que poderia dedicar algumas horas a este empreendimento.

Sem sucesso. A ferrugem é cada vez mais grossa, e o teclado cada vez mais capenga. Os reflexos também não ajudam. Morri diversas vezes para um chefe que sempre me deu problemas no Ato II, mas de formas cada vez mais frustrantes e embaraçosas. Fora que a nova Sorceress está muito longe do dano e resistências ideais para conseguir fazer qualquer coisa que não fosse soltar raios a torto e a direito e fugir desesperadamente, na esperança de eventualmente matar (e principalmente não morrer para) um monstro de nível Elite.

Aqui entra um outro grande cerne da questão que me impede de progredir nesta empreitada. O vício de procurar as melhores builds da liga e colocar aquilo como um alvo que na realidade só será atingido depois de muitíssimas horas de dedicação.

Diferentemente de todo criador de conteúdo voltado para estes jogos, mesmo aqueles que o fazem em part-time, eu não tenho nem perto das horas que os mesmos podem dedicar a um PoE 2 da vida. Em um dia de jogo eu completo o primeiro ato da campanha. No mesmo intervalo de horas tais pessoas já estão pelo menos no fim do quarto Ato, ou até além.

O progresso lento (da minha parte) me causa muita irritação. Ao ponto de me sentir praticamente imobilizado para prosseguir.

Não sou a primeira pessoa nem a última a ter este tipo de sentimento. Uma espécie de "FOMO" que leva ao imobilismo. Mas é talvez até pior. É o medo de não ter o talento e principalmente o tempo para me fazer satisfeito. E a "satisfação" aqui é deletar chefes como faz um Fubgun da vida.

O que leva a consequente pergunta: por que eu me deixo levar e medir minha satisfação pela cópia ou até caminho percorrido por outra pessoa com muito mais recursos (para o jogo) do que eu? Por que eu não me satisfaço com simplesmente percorrer o meu próprio caminho com seus altos e baixos, e só ignoro estes conteúdos até a hora de poder quem sabe utiliza-los ao meu favor?

É que o que acontece comigo em PoE 2 e outros jogos, é mero reflexo de coisas que acontecem conosco na vida em geral. Eu não tenho qualquer mídia social ativa - minhas contas na Meta são apenas para seguir a página da churrascaria aqui perto de casa para saber por antecipação quais são os pratos do dia, e para acompanhar uma prima que joga vôlei nas categorias de base de um grande clube do esporte. Mas no jogo eu sou tão ou mais influenciado pelas dinâmicas da "vida perfeita de Instagram" como a pessoa que usa a mídia social para tal fim.

A abstinência das redes sociais neste sentido me fez muito bem. Ficar alheio ao que fazem das suas próprias vidas não me cria mais anseios de ir experimentar restaurante X ou passar um período de férias no hotel Y. Compro minhas bugigangas da Amazon e do AliExpress conforme as demandas me aparecem na vida. O que em breve deve incluir um teclado mecânico pois este que tenho já está no fim da sua vida e da sua praticidade.

Não é o que acontece com o YouTube e com o PoE 2. Meu feed atual é um sem-número de vídeos sobre Fubgun e seus parceiros conseguindo obter dezenas ou até centenas de Divine Orbs em poucas horas com seus personagens construídos em centenas ou até milhares de horas de jogo. E também com suporte de grandíssimas comunidades que lhe oferecem apoio com ideias e principalmente com doações monetárias para que continuem a fazer do jogo o seu sustento.

Nada tenho contra estes criadores de conteúdo até porque são eles quem escrevem eventualmente os guias que eu sigo para aproveitar o "endgame" da melhor forma possível. Entretanto a minha busca por eles antes mesmo de uma liga de PoE 2 começar trouxe estes impedimentos para o meu melhor aproveitamento do jogo.

Sinto assim que é melhor de fato fazer o mesmo no YouTube, o que eu fiz com as mídias sociais. A abstinência dói muito de início, mas seus benefícios de médio e longo prazo são mais do que compensadores. Talvez assim eu até consiga ignorar por mais um dias este teclado nada responsivo enquanto completo a campanha de PoE 2 até o fim desta semana.

#cotidiano #pensamentos