Pega, mata, e come

A "gosma" do instante

Já não lembro exatamente onde li ou ouvi estas palavras. Mas é algo que eu já pensava de forma inerente e que fica cada vez mais claro: nossa classe política é reflexo societal de tudo, incluindo a pobreza do nosso pensamento político-econômico para além dos confins estabelecidos pós-queda da URSS.

Basta pensar na quantidade de políticos de outrora, eleitos ou não, cuja atividade incluía pelo menos um diário sobre o seu dia-a-dia, suas ações e os pensamentos que vinham à sua mente. Pensamentos estes de natureza obviamente política, social e econômica. E no momento atual o que temos em grande parte do mundo moderno e democrático são advogados de negócios/civis atuando como legisladores ou até mesmo no topo dos seus respectivos cargos, liderando a nação em prol do interesse próprio e quem sabe do partido que representam.

É uma grande ironia porque estas pessoas em tese tem como função profissional escrever de forma copiosa e argumentar a favor de causas, sejam estas a de seus clientes ou as suas próprias. Mesmo assim estes parecem não ver qualquer serventia em destrinchar de forma um pouco mais formal o seu pensamento político de base.

Por um lado isso é explicado pelo fato de políticos profissionais serem também répteis com níveis de gosma nunca antes vistos. Não há espaço para declarações definitivas sobre valores-base para um primeiro-ministro ou aspirante a tal posição que demarque como sua bandeira algo que pode ser mal visto em alguns anos ou até meses porque é uma visão muito ideológica, seja de um lado ou de outro.

Entretanto não é difícil encontrar nas livrarias livros sobre o pensamento fundamental dos nossos líderes políticos em forma de "biografia não autorizada", principalmente quando estes saem dos seus respectivos cargos em rumo a uma eventual aposentadoria. O que é estranho porque mesmo "não autorizadas" tais biografias são em grande parte veículos tão propagandísticos quanto um comercial de TV em épocas eleitorais.

Mas mesmo estas biografias são muito ricas em conteúdo e paupérrimas em pensamento. Tais livros servem muito mais como peso de porta do que como leitura. Pode-se argumentar que um leitor sai da obra com mais dúvidas sobre a pessoa em questão do que respostas porque mesmo na sua biografia a neblina é tão espessa que nenhuma luz pode atravessa-la.

Tal argumento pode ser visto como uma romantização da antiga política. Em certa medida é mesmo isso. Mesmo que a pessoa seja um verdadeiro "camaleão" na assembléia da república, eu quero saber o que lhe dá motivação para tais instintos. Mesmo que o tal instinto seja puramente taticismo e aproveitamento próprio, em um lugar onde bandeiras políticas e ideológicas são deixadas de lado em prol do poder pelo poder.

Admiraria muito mais o político honesto quanto a estas motivações do que o que temos atualmente, onde os ternos encontram-se cada vez mais vazios e a democracia, por sua vez, declina cada vez mais como efeito. Entretanto o principal ainda é a pobreza de pensamento que nos domina.

Eu me assumo como vítima deste problema. Meu trabalho me permite alguns momentos de liberdade ao longo dos dias, momentos estes que eu poderia usar de forma mais produtiva no lado intelectual. Só que a preguiça me domina e nada disso acontece.

Não estou aqui fazendo uma defesa do "homem produtivo", outra síndrome que me domina desde os tempos mais primórdios. É mais que o trabalho intelectual como escrever este texto, ler um livro por pior que ele seja, e pensar de forma mais estruturada nas minhas motivações são coisas que me trazem um agrado genuíno.

Estas são coisas que eu fazia de forma muito fácil antes e durante a pandemia. Tudo ficou muito mais difícil desde então.

Por um lado os desenvolvimentos pessoais me deixaram muito mais ocupado e com muito menos espaço mental para tais exercícios intelectuais. Por outro, é mesmo muito mais difícil parar para pensar de forma apropriada nas coisas ao meu redor quando tudo que acontece parece ser feito para me gerar reações imediatas.

São assim com as notícias e as caixas de comentários. As mensagens no WhatsApp. Até os highlights do aplicativo de Fotos do Google. Não há espaço para reflexão e depuração. É tudo acontecimento a ser aproveitado num piscar de olhos e de forma multiplicada ao longo do dia.

Eu ainda tenho o "privilégio" de não precisar e nem querer usar mídias sociais para coisas que não sejam ver menus dos restaurantes locais e ver um ou outro vídeo de algum maluco no Rio de Janeiro fazendo piruetas com carros e motos em pleno trânsito carioca. Isso não quer dizer que eu não fui infectado com a ânsia da instantaneidade depois de longos anos de consumo de mídias sociais quando as mesmas foram criadas e popularizadas.

Sinto que não estou sozinho nisso. E pelo que vejo aqui e ao nosso redor nossa classe política é afligida pelo mesmo problema. Se a decisão instantânea e contrária aos princípios do partido, do programa eleitoral e principalmente do político consegue lhe angariar mais alguns apoiadores e consequentemente garante mais alguns dias ou meses no poder... vambora.

Porém não reclame pelo eventual fim do sistema político que lhe deu tal poder em primeiro lugar. Uma lição que eu sinto que será aprendida de forma muito dolorosa principalmente na Europa em alguns (poucos) anos.

#pensamentos #política